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Chá Gorreana, uma casa à moda antiga

A Gorreana é o exemplo perfeito do que é ser português. De como nos sabemos “virar” e transformar os contratempos em legados intemporais.

  • Texto: Joana Soutosa
  • Fotografia: Maria João Gala
04 de Novembro, 2026

Durante o início do século XIX, os Açores, especialmente a ilha de São Miguel, desenvolveram uma economia fortemente dependente da exportação de laranja. Este comércio tinha como principal destino o mercado britânico, sobretudo via portos como Ponta Delgada. A procura era elevada no Reino Unido, tanto para consumo direto como para usos medicinais, já que o fruto era usado para combater o escorbuto, uma doença grave, hoje rara, causada pela deficiência prolongada de vitamina C.

Em meados deste mesmo século, uma praga conhecida como a “doença das laranjeiras” dizimou grande parte dos pomares açorianos que, por esta altura, representavam a principal fonte de rendimento para muitas famílias. Além disso, este citrino começou a ser produzido em grande escala noutros países, sendo comercializado a um valor mais baixo.

Com o declínio da cultura da laranja, surgiram novas alternativas agrícolas, como o chá, introduzido pela Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense sob a liderança de José do Canto. As temperaturas amenas e o solo rico em minerais criam as condições perfeitas para o crescimento da Camellia sinensis, planta que dá origem ao chá.

Em 1848, sementes trazidas do Brasil começaram a ser plantadas em várias propriedades micaelenses, marcando o início da produção de chá nos Açores.

Para partilhar conhecimento técnico e garantir um cultivo eficiente, veio o mestre de chá chinês, Lau-a-Pan, e o seu assistente e intérprete, Lau-a-Teng. No final do ano de 1800 o chá já era considerado uma importante fonte de riqueza para o arquipélago, com várias fábricas em operação. Mas, tal como acontecera com a laranja, também este ciclo acabaria por enfrentar o seu decréscimo.

Ao longo do século XX, a emigração em massa e as mudanças sociais e laborais após a Revolução do 25 de Abril fragilizaram o setor. A produção deixou de ser sustentável para a maioria das famílias e as fábricas foram encerrando. A história repetia-se. Mas nem todas desapareceram.