Casa Ferreirinha Reserva Especial 2017: um Douro monumental que desafia o tempo e se senta à mesa dos grandes vinhos do mundo
- Texto: Nuno Guedes Vaz Pires
- Fotografia: Ricardo Garrido
Há vinhos que nascem para marcar uma época. Outros, mais raros, parecem nascer para desafiar o tempo. O novo Casa Ferreirinha Reserva Especial Douro 2017 pertence claramente a essa segunda categoria.
A apresentação decorreu no JNCQUOI Club, num exercício de prova cega particularmente exigente e simbólico. Ao lado deste Douro surgiram cinco ícones mundiais provenientes de França, Itália, Austrália, Argentina e Estados Unidos da América, numa mesa onde não havia espaço para patriotismos fáceis nem para complacências. Apenas vinho. Apenas grande vinho. E talvez tenha sido precisamente aí, nesse território sem rede, que o Reserva Especial 2017 mais impressionou.
Porque não se impôs pelo excesso, pela força ou pela exuberância imediata. Impôs-se pela profundidade, pela serenidade e por uma elegância rara nos tempos que correm.
Majestoso, mas nunca excessivo — eis os primeiros comentários que assaltam a memória após a prova deste extraordinário vinho. O que destacar primeiro? O abanico infindável de fruta preta e vermelha, a mina de lápis, o cedro, os balsâmicos, o chocolate e as especiarias? Provavelmente, será mais fácil — e mais justo — sublinhar o tremendo equilíbrio entre taninos e acidez, a estrutura imensa, a elegância absoluta e a impressionante capacidade de guarda que promete. Surpreende pela harmonia já demonstrada nesta fase, naquela que poderá ser uma das edições mais proporcionadas de sempre. É um vinho excecional, uma das grandes referências mundiais de Portugal.
Criado originalmente em 1960, o Reserva Especial chega agora apenas à sua 19.ª edição, mantendo intacta uma filosofia quase obsessiva: só é lançado quando a equipa considera que o vinho atingiu verdadeiramente o momento certo. Sem pressa. Sem calendário imposto. Apenas o tempo e a convicção.
E talvez seja precisamente isso que torna este vinho tão especial no contexto atual. Num mundo acelerado, dominado pela urgência e pelo imediatismo, o Reserva Especial continua a afirmar-se como um manifesto de paciência, de detalhe e de visão de longo prazo.
A colheita de 2017 parecia, à partida, improvável para um vinho desta natureza. O Douro Superior viveu um dos anos mais quentes e secos de que há memória, com temperaturas extremas e condições particularmente exigentes para a vinha. Mas foi precisamente nesse cenário duro que nasceu um vinho de impressionante frescura, precisão e delicadeza. Grande parte das uvas teve origem na Quinta da Leda e em vinhas de altitude na zona da Meda, combinando Touriga Franca, Touriga Nacional, Sousão, Tinto Cão e Tinta Roriz num lote de enorme complexidade e equilíbrio.
Apresentado por Fernando da Cunha Guedes e pelos enólogos Luís Sottomayor e Lourenço Charters, este novo Casa Ferreirinha Reserva Especial mostra também como Portugal consegue hoje sentar-se, com naturalidade e legitimidade, à mesa dos maiores vinhos do mundo.
Depois de nove anos de evolução entre madeira e garrafa, o Casa Ferreirinha Reserva Especial Douro 2017 chega ao mercado com a promessa de continuar a crescer durante décadas. E há vinhos assim: mais do que uma nova colheita, tornam-se memória futura.
Na edição de junho da Revista de Vinhos contamos a história deste grande vinho português, mergulhamos na origem e na filosofia de uma das referências maiores do Douro e revelamos a pontuação obtida pelo novo Reserva Especial 2017.