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O tempo que nos une: os primeiros 100 anos da Marcolino

O tempo é, por natureza, uma abstração indomável. No entanto, para quem visita a cidade do Porto e sobretudo para os portuenses, o tempo tem uma morada, um rosto e um bater certo. Na esquina onde a Rua de Passos Manuel se cruza com a Rua de Santa Catarina, a Marcolino ergue-se há décadas como um farol analógico numa era que agora é digital. A Marcolino está a celebrar 100 anos e tem muitas razões para festejar.

  • Texto: Luís Alves
  • Fotografia: Maria João Gala
23 de Junho, 2026

A história de uma das relojoarias mais prestigiadas da cidade do Porto não é uma narrativa linear de uma única linhagem de sangue. É antes uma passagem cuidadosa de um testemunho ao longo das últimas dez décadas. “Em 1926 o Sr. António Marcolino fundou esta casa”, começa por recordar Miguel Neves, atual COO e representante da geração que se segue na liderança da Marcolino. Trata-se de um “império” construído à escala humana, com um percurso inicial humilde, numa pequena loja inicial. Apenas em 1937 a Marcolino assenta arraiais na Rua de Passos Manuel, onde permanece até aos dias de hoje.

Com o evoluir dos tempos e as flutuações naturais e vivas do comércio portuense, o negócio mudou de mãos e foi vendido a Adriano Magalhães, já nos anos 60. Alguns anos depois, no início da década de 70, foi novamente vendida, desta vez ao reconhecido ourives José Moura. décadas de existência e uma história que quisemos respeitar”, revela o atual COO.

Hoje, a passagem de testemunho continua a acontecer, mas desta vez de forma interna e familiar. A gestão da empresa é atualmente partilhada entre Paulo Neves, pai de Miguel, e o próprio que vai afinando as melhores técnicas de gestão. O patriarca está gradualmente a delegar a responsabilidade de gestão na geração seguinte para preparar a succession, enquanto Miguel acompanha todo o trabalho sólido já criado e procura inovar e acompanhar os novos tempos, garantindo que as fundações clássicas não ficam para trás face às novas exigências do mercado global.

Miguel Neves

“Temos avós, pais e netos a fazerem compras na Marcolino, ao longo de décadas. Muitas vezes para assinalar momentos importantes da vida.”

Miguel Neves

Muito mais do que vender tempo

Quando se entra nas generosas instalações da Marcolino, o foco imediato recai sobre as vitrines iluminadas, o pé direito colossal e um silêncio e tranquilidade, normalmente associados a luxo e refinamento. E não restam dúvidas sobre os atores principais da casa: o “core business” é indiscutivelmente a relojoaria, embora exista uma clara ambição e estratégia para crescer paralelamente no segmento da joalharia.

Seja na relojoaria, seja na joalharia não serão assim tantos os negócios de luxo que perduram por um século. O segredo parece ser a relação que se prolonga para lá do momento formal da transação. “A nossa venda não acaba no momento em que o cliente compra o relógio”, explica Miguel Neves. “Temos avós, pais e netos a fazerem compras na Marcolino, ao longo de décadas. Muitas vezes para assinalar momentos importantes da vida”. Para além desta reality, uma outra âncora da fidelização do cliente tem residido, cada vez mais, no serviço de assistência técnica. A marca compreendeu esta necessidade, tendo feito obras de expansão neste departamento há cerca de dois anos e reforçado a equipa técnica, o que nem sempre é fácil.

 

“É um desafio conseguirmos mão-de-obra certificada para esta área da assistência técnica de relojoaria”, confessa o COO, sublinhando tratar-se de uma especialização profundamente técnica e cada vez mais rara no mercado de trabalho. Apesar disso, a operação tem corrido bem e os clientes têm sabido valorizar o esforço de fazer algo mais do que a venda.

Apesar dos desafios na captação de talento artesanal, a empresa orgulha-se de deter certificações oficiais que atestam a competência, estando apta a intervir diretamente em peças de marcas suíças de excelência, como é o caso da Rolex. As exceções a este processo cirúrgico em território nacional são limitadas: modelos muito específicos ou de caráter vintage, nos quais não podem intervir internamente por questões de protocolos das marcas, são enviados com a máxima segurança diretamente para as fábricas de origem. O objetivo deste serviço exímio, construído com detalhe e paciência, é claro. “Se o cliente quiser mudar uma bracelete, fazer um polimento ao relógio, proceder a afinações ou outro tipo de reparações, nós estamos aqui e estaremos sempre”, garante Miguel Neves. É a materialização de uma promessa que transforma uma compra mais ou menos pontual numa relação de confiança para a vida.