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“Plantar um jardim é acreditar no amanhã”, disse Audrey Hepburn. A história deste hotel leva mais de 90 anos, nascido num parque que começou a ser cultivado no século XVIII. É um comboio em andamento feito de sonhos.
Embora as Furnas fossem há muito conhecidas pelos fenómenos geológicos únicos, a sua história contemporânea começou com a visita de Thomas Hickling e a subsequente construção do que hoje é conhecido como o tanque termal.
Thomas Hickling nasceu em Boston, a 21 de fevereiro de 1745, no seio de uma família de mercadores da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos da América. Por ter consciência que, ao rever-se nos ideais revolucionários que se começavam a manifestar poderia trazer problemas à família, mudou-se para a ilha de São Miguel, nos Açores, onde se estabeleceu como consultor comercial aos 24 anos.
Em 1770, pouco depois da chegada à ilha, Thomas visitou a vila das Furnas e, em 1782, adquiriu um terreno na região, onde mandou construir uma casa de férias a que chamou Yankee Hall. Esta foi a primeira casa de campo das Furnas. Rodeada por uma pequena floresta com árvores e arbustos, seguia linhas rurais simples e estava elevada em relação a um lago onde era possível andar de barco e pescar. Esta atração começou a tornar-se popular entre os residentes, criando uma mistura social impulsionada pela hospitalidade de Hickling, que convidava indivíduos de todos os estratos sociais a visitar a sua propriedade e, aos domingos e em dias de festa, abria o tanque a todos.
E nasce a Bensaude Hotels
O nome Bensaude não deixa de ser curioso, principalmente quando falamos de um grupo económico com 200 anos que continua “bem de saúde” sob o controlo da família com o mesmo nome.
Tudo começou no início do século XIX, quando um jovem judeu chamado Abraham Assiboni começou a pensar seriamente em fugir de Marrocos, uma história comum a todos os judeus espalhados pelo mundo desde que, em 733 a.C., parte da população de Israel se viu obrigada a deixar a “terra-prometida” e partir para o exílio.
Do Norte de África mudou-se para o meio do Atlântico. Chegado a Ponta Delgada, em 1820, o primeiro passo foi mudar o nome para Abraão Ben Saude (nome que homenageava um antigo patrono) de forma a facilitar a integração em Portugal.
Rapidamente percebeu que os açorianos se vestiam com tecidos produzidos localmente de forma artesanal, já que o preço dos panos importados era proibitivo para a grande maioria da população. Pegou num burro de carga e deslocou-se até às freguesias do interior, levando consigo uma escolha variada de tecidos a preços acessíveis que vendia a fiado. O modelo resultou e aumentou a procura, acelerou a circulação de mercadoria e contribuiu para a descida progressiva dos preços. Os comerciantes já estabelecidos não reagiram bem e a atividade da comunidade judaica passou a ser pressionada e limitada. Ainda assim, Abraão soube contornar o contexto. Valendo-se da sua rede de contactos britânicos, começou a investir os lucros na exportação de laranjas açorianas para Inglaterra, num negócio que viria a marcar a economia da região.
O antagonismo inicial acabaria por dissipar-se quando os próprios comerciantes locais perceberam o potencial desse circuito comercial.
A partir daí, a presença judaica deixou de ser vista como ameaça e criou-se o ambiente necessário para que Abraão trouxesse a família: os irmãos Jacob, José e Elias, o primo Salomão, a mulher, a mãe e o filho Joaquim.
Com Elias e Salomão, começa verdadeiramente o crescimento do Grupo. Transportam passageiros para o Brasil. Compram navios. Montam frota. Pescam bacalhau. Apoiam a construção de portos. Entram na energia e nos seguros. Apostam na indústria. Tabaco, álcool e açúcar. Fundam um banco. Investem em empreendimentos estrangeiros.
É na terceira geração, com Vasco Bensaude, que o Grupo Bensaude se estreia no turismo.
Em 1933, a Sociedade Terra Nostra, liderada por Vasco, comprou aos herdeiros dos Marqueses da Praia e Monforte a propriedade localizada nas Furnas para construir o primeiro hotel de raiz nos Açores (todos os outros tinham sido adaptações de edifícios com outros usos anteriores). O Terra Nostra Garden Hotel abriu a 20 de março de 1935.
Dois anos mais tarde, a Sociedade Terra Nostra reabriu o jardim botânico anexo ao hotel, agora chamado Jardim Terra Nostra. Esta aquisição trouxe consigo um conjunto de desafios devido a uma degradação cada vez mais visível após um longo período de declínio. Para supervisionar os trabalhos de restauro do jardim, que duraram três anos, Vasco Bensaude contratou o jardineiro escocês John McEnroy.
A Casa do Parque foi completamente renovada e o tanque foi ampliado e revestido a pedra. Os elementos decorativos do jardim foram limpos e restaurados e foram feitas novas plantações, entre elas a mais emblemática deste novo período da história do jardim, a Alameda das Ginkgos. Mas havia ainda muito potencial por explorar, por isso, em 1992, dão-se novas obras de reabilitação que colocam o Parque Terra Nostra na rota dos grandes jardins do mundo.
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