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Da vila jesuíta do século XVI à vila de pescadores do século XX, da vila de naturistas dos anos 70 à vila chique dos anos 2000, Trancoso é uma só – e múltipla sempre. É rústica e sofisticada, dos farofeiros e da elite. Indígena e internacional. É alma virgem e boémia experimentada. É silêncio puro e baiana que dança. É praia, mata, paz. É amor que fica e se cola na pele. Para sempre.
O quadro tinha oitenta mil estrelas. Tantas quanto o céu de Trancoso em dias limpos. Não era o caso. Hoje chovia. Muito. Tanto que o “espelho” que dá nome a esta praia a sul de Trancoso, por refletir o céu nas suas águas calmas, cristalinas e rasas (ao pôr do Sol ou em noites de lua cheia durante a maré baixa, quando se formam piscinas naturais) não refletiu nada nestes dias de primavera no sul da Bahia. E, mesmo substituindo os reflexos cristalinos por céu cinzento-escuro e o sol intenso por pingas grossas de chuva, a temperatura do ar não desceu abaixo dos 25 graus, os mergulhos continuaram quentes e as caipirinhas bem geladas. Mas já lá iremos.
O quadro com oitenta mil estrelas tinha sido apalavrado a um português que nunca o veio buscar. Foi o único quase-comprador lusitano de uma peça de arte de Rolen Dantas. Rolen é artista plástico e nasceu no estado da Bahia, a quinta maior das 27 unidades federativas do Brasil, com quinze milhões de habitantes, situada a Nordeste, o litoral mais extenso do país (com cerca de mil quilómetros de costa!) e capital estadual em Salvador. Mas, mais do que baiano de gema, Rolen é filho da praia, desta que reflete, constantemente considerada uma das mais bonitas do Brasil, Curuípe de nome oficial.
Conhecemos o artista na sua casa-atelier ainda em fase final de construção. “Estou aqui há cinco anos”, conta-nos enquanto enche de vida e cor mais um remo de canoagem (tem dezenas já pintados, pendurados nas traves de madeira do teto). “Comecei na praia e estive lá uma década. Nunca saí do Espelho, mas o ano passado fui expor o meu trabalho em Miami, na Art Basel. Foi muito legal”, diz-nos de sorriso largo.
Chegámos ao atelier de Rolen depois de um par de mergulhos, algumas caipirinhas de cacau servidas no fruto e um almoço indígena de peixe: badejo na folha de paxiúba (a palmeira que “caminha” pela floresta, à procura da luz) com abacaxi, aipim, batata-doce, abóbora, milho e banana-da-terra. Tivemos de pedir ajuda para lá chegar. Não existe nada parecido a uma rua principal, nem tão pouco tabuletas com indicações. Subimos uma ladeira de terra batida, repleta de valas recém cavadas pelas chuvas intensas, chinelámos na lama, espalmámos mosquitos. O suor escorria-nos na testa e a respiração estava ofegante quando começámos a ouvir a música vinda de uma casa branca de linhas modernas e amplas janelas.
A origem das espécies
Vimos tucanos. Contavam-se 500 numa das muitas telas coloridas, vibrantes e de inspiração naïf, expostas nas paredes. “Esta demorou um mês a pintar”, refere o artista de 41 anos, que se inspira no mar, no mergulho, para criar peças em vários tipos de suporte: telas, remos, mandíbulas de baleia e até bóias náuticas (transformadas nos candeeiros de teto que iluminam o alpendre).
Vimos búfalos. Dezenas e dezenas e dezenas de búfalos… (para não dizer centenas, porque não tínhamos forma de os contar). Estes búfalos não estavam desenhados numa tela na parede, mas lembravam um quadro impressionista. Era impressionante…: perdiam-se de vista naquela planície imensa, ensopada pela chuva e pintada de verde-musgo.
“É a fazenda de um português, um dos maiores criadores de búfalos do país. Usam-nos para fazer mozzarela”, conta Adriano por entre os cliques das máquinas fotográficas. Moacyr Costa Pereira de Andrade é o português de que o nosso guia falava, cônsul de Portugal em Porto Seguro, proprietário (controverso, segundo lemos mais tarde em alguns jornais) de milhares de hectares de terras da região, desde o Rio dos Frades até Trancoso.
Da vila de Trancoso até à da Praia de Curuípe contam-se menos de trinta quilómetros, mas em dias de chuva como este, pode demorar-se mais de uma hora a percorrê-los.
Dos 26 quilómetros de percurso, vinte são em estrada de chão, como dizem por aqui. “Partem-se muitos carros neste caminho”, comenta-nos Thomas, o motorista baiano, entusiasta e estudioso de aves nas horas vagas. Thomas faz esse comentário enquanto passamos por um condutor que tentava recolocar o para-choques no carro apeado à beira da estrada. Isto aconteceu de manhã, na ida para a Praia do Espelho. Ao final do dia, no regresso a Trancoso, o homem e o carro continuavam no mesmo sítio, acompanhados de mais um par de homens, que tentavam ajudar.
As condições da estrada só são indiferentes para quem chega de helicóptero aos condomínios de luxo das imediações, como o Outeiro das Brisas, que tem um heliporto, uma pista de pouso para pequenas aeronaves, um campo de polo e até uma réplica do Quadrado de Trancoso… Mas essas condições não são indiferentes para os ambientalistas, como os voluntários da ONG Despertar, que sublinham a importância da preservação desta região de Mata Atlântica. Estão satisfeitos por o aumento exponencial do turismo na zona não se ter refletido em cinzento de asfalto no caminho.
“Estamos no interior da Reserva de Mata Atlântica da Costa do Descobrimento, tão importante quanto a Amazónia”, enfatiza Laura Ramallo, diretora da OTT (Organização Turismo Trancoso).
É aqui que fica o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal, o primeiro e único Parque Nacional e Histórico brasileiro. Com mais de 22 mil hectares, foi criado em 1943 e faz parte do Património Mundial Natural da UNESCO da Costa do Descobrimento. E porquê? Por razões históricas, culturais, naturais, estéticas, antropológicas, conceptuais. Antes de mais, por estar no primeiro pedaço de terra avistado pelos navegadores portugueses no Brasil, em 1500; a primeira região a ser colonizada, testemunho vivo da História (goste-se ou não dela). Depois, pela diversidade de paisagens: praias de águas cristalinas, vegetação de restinga (ecossistema costeiro de solos arenosos e salinos), manguezal, praias pluviais dos rios Caraíva e Corumbau, campos de mussununga (ecossistema único da Mata no sul da Bahia) e Mata Atlântica; E, por fim (deixando aqui insinuado que os últimos vêm sempre em primeiro…), por ser um dos derradeiros redutos dos povos indígenas originais, os Pataxós.
As casas foram erguidas respeitando os contornos do jardim.
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