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Apetece-lhe desligar? Reconectar consigo, a arte e a natureza? Então vá até à Cerdeira, na Lousã, uma aldeia de xisto que nos brinda com ar puro, aromas de floresta e paz, entre serra e cascatas, numa orografia escarpada que inspira à criação e acicata experiências artísticas. Tudo a dois passos de Coimbra.
Estamos a apanhar sol numa das varandas das casas de xisto da Cerdeira e a observar a vegetação que anuncia a primavera no seu esplendor. Há um cheiro a urze e flores no ar, pólen esvoaçante que nos paira sob as narinas, entre zumbidos de abelhas atarefadas no mel de urze.
A neblina matinal dissipou-se no mistério da alvorada, aos primeiros raios de sol, e o azul abre-se sobre o verde. Nem parece que, na véspera, choveu de forma diluviana, confundindo-se a intempérie com o som das inúmeras cascatas que povoam a montanha.
De repente, nem sabemos de que terra somos. Inspira-se e expira-se contemplando a imponência dos sobreiros, azereiros, cerejeiras, carvalhos e oliveiras. Só nos apetece sentir o som do silêncio e que ninguém abra o bico, a não ser o melro-azul ou o peneireiro.
Permitida é também a maciez calmante da musicalidade aquática que cascateia pela serra abaixo. Lá ao longe, andarão veados e corços nas suas deambulações silenciosas.
Estamos na Cerdeira-Home for Creativity e, como o nome indicia, o apelo às artes e craft surge mesmo antes de um desejo de evasão, neste lugar escavado na bacia hidrográfica da Ribeira de S. João, o principal curso de água a drenar este flanco da serra.
Se está cansado do bulício da cidade, de escapes e ruídos irritantes, este lugar foi feito a pensar em si. Se, ao mesmo tempo, quer expressar o seu lado criativo numa espécie de retiro artístico, então está mesmo no sítio certo.
Roda de oleiro, cestaria, cerâmica, manualidades várias e workshops configuram a principal vertente deste projeto, pois o chamamento da arte vem mesmo antes do lazer e do alojamento.
Este não é um espaço de hotelaria comum, muito pelo contrário. Não há luxos convencionais, tagatés, spas, amenities, massagens ou blandícias. Também não há televisão. Há, isso sim, uma convocação à descoberta de si mesmo através da expressão artística e da natureza. E há lugar ao hedonismo.
Situada no meio do nada, entre as serranias do Açor e Estrela, a Serra da Lousã forma o mais imponente dos alinhamentos montanhosos de Portugal, a Cordilheira Central. Predomina o xisto e quartzito. Pré-câmbrica, geologicamente a zona é rica e espoleta em nós instintos recônditos. Estamos a cerca de 800 metros de altura mas o ponto mais alto é o Alto do Trevim, a 1204 metros.
Chegámos com chuva à Lousã e, após uma viagem de cerca de 20 minutos por uma estrada serpenteante, pejada de manchas amarelas de mimosas, damos de caras com a Cerdeira.
De repente, as casinhas de xisto surgem lá ao longe como miragem, aninhadas na vertical, num anfiteatro edénico. No fundo do vale, serpenteia um curso de água unindo as várias cascatas que povoam a serra e uma névoa adensa algum mistério.
Pensar que tudo isto estava em ruínas há pouco mais de uma década dá que pensar.
Pois bem. Inicialmente, foi um casal estrangeiro de estudantes de Coimbra que teve a coragem de – há cerca de três décadas – vir para aqui viver e ter um sonho. Quando cá chegaram, não havia água canalizada nem luz e as casas estavam todas abandonadas, uma aldeia-fantasma.
E assim estaria ainda talvez, se, a Kirstin Thomas e o marido, não se tivesse juntado um outro casal de amigos portugueses, Natália e José Serra, que conheceram em Coimbra, e corporizaram o dito sonho de forma ímpar.
Recuperaram a aldeia abandonada desde os anos 70, mas não fizeram só isso. Criaram um mundo mágico de atividades artísticas e gregárias que deram vida, de novo, ao lugar. É obra.
A aldeia tem cerca de 300 anos e a recuperação começou há 15 anos, já que as casas estavam abandonadas há um século.
Estas serranias são estratégicas. Separam as bacias hidrográficas do Mondego e do Tejo.
Dos declives abruptos aos mantos verdes de vegetação e áreas sulcadas pelos cursos de água, a faceta humana surge nestas casinhas encantatórias de xisto e não dá para não evocar os homens e mulheres que, entre o século XVII e XVIII, por aqui erigiram refúgios em xisto, para dar tréguas ao pastoreio dos rebanhos, a par de vários moinhos e um forno comunitário para cozer pão.
O luxo pode ser…uma sopa deliciosa em cerâmica craft
As casinhas foram construídas, em perfil desalinhado, sobre um morro rochoso feito de socalcos que as amparam. E conseguiram escapar ao saque napoleónico em boa hora.
Mas por que é que o nosso cérebro não pára de pensar ao observar isto tudo? Por que é que nos incita a percorrer a serra e a aldeia, não querendo perder pitada?
Porque neste lugar, depois do descanso, a curiosidade e a cinética são mais fortes, apetecendo desbravar os caminhos que escalam, em socalcos e chão de ardósia, numa escadaria rodeada de verde frondoso, sempre com a água tão perto, mesmo que o declive não seja fácil.
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