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Um hotel com muito mais que camas, muito mais do que um espaço lindo sobre a praia. Mais do que ter estrelas na lapela, marca-nos lugar junto às constelações, aos sonhos. Ficar no Nômade Temple Tulum é iniciar uma viagem pela ancestralidade, por um México de ritos espirituais, pelo âmago, pelas vísceras. Nossas e deste país que é ventre.
Levantámo-nos da cama cansados. Não que a cama não fosse grande e confortável. Era e muito! Não que o quarto não fosse espaçoso, luminoso, ventilado. Era, bastante. A grande janela em frente à cama abria-se para a varanda sobre o areal da praia. Estávamos alojados numa das cinco treehouses do Nômade Temple, uma suite só para adultos que se eleva a mais de doze metros do chão, como se a vontade fosse a de se esticar e, com um dedo apenas, tocar o céu de Tulum.
Tínhamos fechado os cortinados para dormir na escuridão, optado por jantar cedo e comer na varanda, aproveitando a panorâmica e a brisa quente vinda do mar. Escolhemos uma refeição leve, trazida do Macondo, um dos três restaurantes do hotel (sendo o japonês Kuu Jū, ao estilo omakase, o mais gastronómico). O Macondo, onde se toma também o pequeno-almoço à carta, está concentrado nos sabores do Médio Oriente.
Pedimos hummus de alho negro com macadâmia tostada e baba ganoush (beringela grelhada com zaatar e tahini) e acompanhámos a refeição com um shot de tequila, apenas um, numa dose quase terapêutica. Antevíamos um dia intenso…
A indisposição que sentimos ao acordar não foi provocada pelo jantar – e muito menos pela tequila terapêutica! O nosso corpo revoltava-se a partir das entranhas, deixando-nos colados à casa de banho (e que casa de banho!), mas não sofríamos com náuseas nem vómitos.
“O corpo está em modo de fuga”, disse-nos José umas horas depois, quando nos preparávamos para desistir da cerimónia marcada na tarde anterior. Tínhamos feito muitos planos para a primeira manhã neste hotel plantado na praia…
Out of the ordinay
José entregava-nos a pesada caixa de cartas com as duas mãos em concha sobre ela, como uma oferenda. Enquanto o fazia, de pé junto à entrada do wellness center, olhava-nos nos olhos e explicava-nos como funcionava o “jogo”. Deixava silêncios cheios de significado entre as frases, sem pontos finais, só reticências.
“The Wild Unknown Animal Spirit Deck” de Kim Krans é, pelos vistos, um oráculo bastante conhecido (constatámos depois) para quem lida mais de perto com a(s) espiritualidade(s) da vida. No baralho estão animais reais, míticos e simbólicos que representam arquétipos de energia, emoção e comportamento humano. Cada carta tem uma mensagem.
Nessa noite, na tal varanda, durante o dito jantar, decidimos jogar. E o que nos calhou na sorte, pôs em causa toda a nossa fé no ceticismo. Um coelho, símbolo de uma energia muito sensível, a viver um momento de criatividade e renovação, um símbolo de ciclos novos e de delicadeza, convidava-nos a confiar mais na fluidez da vida. Batia tudo certo. Era suposto começar a confiar nos acasos das cartas também?!…
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