Henrique Sá Pessoa, o chef que se apaixonou por uma ilha
A convite do Turismo de Tenerife, o chef português tornou-se embaixador gastronómico da ilha — e quer agora explorá-la para além do óbvio.
- Texto: Rafael Tonon
- Fotografia: Direitos Reservados
Bastou apenas uma visita para que uma paixão acendesse no peito de Henrique Sá Pessoa. Em março de 2025, o chef português foi convidado para a gala espanhola do Guia Repsol, que aconteceu em Tenerife. Foram poucos dias, mas suficientes para que ficasse com uma excelente impressão da ilha e uma vontade de regressar.
O convite voltou a acontecer naquele mesmo ano, em dezembro, quando o chef Jesús Camacho, do restaurante Donaire, o convidou para um jantar a quatro mãos. Os dois tinham-se conhecido na gala e uma promessa de colaboração mútua ficou em cima da mesa. No encontro que tiveram no restaurante do anfitrião, instalado dentro do GF Victoria 5*GL Hotel (em Costa Adeje, Santa Cruz de Tenerife), serviram alguns dos seus pratos mais icónicos. Mas, sobretudo, deram a conhecer as suas cozinhas e produtos — algo que impressionou Sá Pessoa.
“É uma culinária com influência latino-americana, mas também com um toque europeu. Estão ali no meio do Atlântico, com influências dos dois lados. Mas não tinha noção de como a ilha era tão tropical”, diz o chef. Isso significa, segundo ele, uma infinidade de produtos muito distintos para um português, mesmo aquele que conhece bem a Madeira.
“É uma ilha ainda mais quente, por isso frutos como papaia, maracujá e manga têm sabores totalmente distintos”, ressalta. “Não tinha noção de que as laranjas eram tão doces.”
Sá Pessoa lembra que a ilha espanhola, que integra o arquipélago das Canárias, tem recebido cada vez mais portugueses, que a veem como “destino de praia, de all inclusive”. “Mas há outros lados da ilha que não são óbvios, como a gastronomia, para a qual quase ninguém olha”, afirma. Talvez para que mais gente possa descobri-la, o chef foi convidado para ser um parceiro estratégico na promoção de Tenerife em território português, tanto pela sintonia criativa imediata que surgiu desse encontro como pelas raízes espanholas de Sá Pessoa e pela qualidade ímpar dos ingredientes da ilha, como salienta o comunicado divulgado pelo governo local.
“Como no Algarve ou em Lisboa, há muita restauração turística, mas também há recantos onde se encontra um trabalho mais autoral”, explica o chef português. “Muitos chefs tentam desenvolver um trabalho mais gastronómico para enaltecer esse lado da ilha. São cozinheiros mais viajados, com outra bagagem, que fazem cozinha voltada às tradições, mas com uma leitura contemporânea”, acrescenta. É o caso do próprio Camacho, a quem o colega português tece elogios pela criatividade e, sobretudo, pela capacidade de construir uma cozinha muito própria a partir da sua formação como pasteleiro — conhecimentos que aplica também na lógica da cozinha salgada. “Ele pensa a cozinha sempre numa ótica de pasteleiro, o que lhe permite ter uma visão muito singular dos ingredientes”, diz.
Foi a convite de Camacho que visitou vários produtores na ilha e conheceu mais a fundo os ingredientes locais.
“Há produtos mesmo muito especiais, como o gofio [farinha de milho tostado] ou as batatas locais, que nem podem sair da ilha”, conta. A partir do que viu e provou, criou o menu que cozinhou ao lado do chef de origem venezuelana.
Em janeiro deste ano, os chefs e Tenerife voltaram a encontrar-se num almoço, em que o tenerifeño cozinhou com outros chefs da ilha no Madrid Fusión, para o qual Sá Pessoa foi convidado. Na ocasião, o português convidou o colega a ir a Lisboa, retribuindo a hospitalidade. Em abril, os dois cozinharam novamente juntos, mas desta vez no Henrique Sá Pessoa, o restaurante homónimo do chef, que abriu recentemente no centro de Lisboa (Páteo Bagatela), onde desta vez foi o português a assumir o papel de anfitrião.
“Foi muito especial receber o Camacho e uma delegação de Tenerife na minha casa mostrar a nossa cozinha e os encantos de Lisboa”, diz Sá Pessoa. A Tenerife, ainda não tem data para voltar, mas não vê a hora de aterrar novamente na ilha. “Há muito para descobrir e explorar ali. Sigo curioso com tudo o que ainda posso aprender”, conclui.