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Travel

Bacalar, as sete sombras de azul

México

Há lugares que nos fazem parar. Nada que nos digam, que seja imposto. Só o contágio do silêncio, dos sorrisos, da afabilidade sem achaques, da naturalidade. Um respeito quase solene pelo que está em redor. E em redor está um santuário na selva. Uma tenda que é casa, em cima de uma lagoa que parece mar. Bacalar, Lagoa, Lugar - assim mesmo com “L” maiúsculo. Na Península de Yucatán, sudeste do México. Muito para lá de todos os clichés.

  • Texto: Mónica Franco
  • Fotografia: D.R. e Consejo de Promoción Turística de Quintana Roo
21 de Outubro, 2025
<p>Chegámos de noite, cansados de cinco horas de carro desde o aeroporto de Cancún. Tínhamos passado o dia sentados, a beliscar sanduíches de beira de estrada, a sonhar com a chegada – e com o jantar que queríamos apreciar à chegada. Olhávamos com impaciência para o relógio sempre que havia alguma necessidade de parar. “Não antes de passarmos a confusão”, pensávamos, sem querer verbalizar. A “confusão” começava em Cancún, passava por Playa del Carmen, atravessava Tulum… e só quando apareceram os primeiros sinais a anunciar a reserva da biosfera Sian Ka’An, 150 quilómetros depois do início da viagem, equacionámos parar para beber um café num dos muitos Starbucks à americana, espalhados por todo o país.</p>

Chegámos de noite, cansados de cinco horas de carro desde o aeroporto de Cancún. Tínhamos passado o dia sentados, a beliscar sanduíches de beira de estrada, a sonhar com a chegada – e com o jantar que queríamos apreciar à chegada. Olhávamos com impaciência para o relógio sempre que havia alguma necessidade de parar. “Não antes de passarmos a confusão”, pensávamos, sem querer verbalizar. A “confusão” começava em Cancún, passava por Playa del Carmen, atravessava Tulum… e só quando apareceram os primeiros sinais a anunciar a reserva da biosfera Sian Ka’An, 150 quilómetros depois do início da viagem, equacionámos parar para beber um café num dos muitos Starbucks à americana, espalhados por todo o país.

Estávamos em meados de junho, época baixa no México, tempo de furacões (de junho a novembro) e de chuva. Dávamos graças por isso. Pelo céu cinzento, que ia e vinha, muitas vezes acompanhado de aguaceiros. Durante os quatro dias que passámos em Bacalar, trezentos quilómetros a sul de Cancún, demos sempre graças por estarmos aqui, e por estarmos aqui nesta altura do ano. No momento em que aterrámos no aeroporto de Cancún, sem sequer conseguir imaginar a “animação” dos 25 milhões de turistas que o utilizam anualmente…; enquanto atravessávamos a famosa Riviera Maya pela estrada que liga o norte da Província de Yucatán ao sul, com semáforos, trânsito e rotundas que nos faziam apenas supor como seria se… Demos graças, mesmo quando os ventos e chuvas fortes provocadas pelo furacão a que chamaram Erik, passaram ao largo da lagoa que adotámos como casa.

Bate forte, fortemente

A chuva batia forte nos vidros da cabana. O vento fazia a lona da tenda dançar a um ritmo mais intenso que o habitual. Erik passou ao largo da Lagoa de Bacalar, mas mesmo assim, ainda agitou as suas águas normalmente plácidas. Com a cor do céu, cinza agora, mudam também as cores da lagoa: do cinza ao verde, do azul-esmeralda ao turquesa, do bebé ao céu – o firmamento! O pantone deu-lhe o cognome e catapultou-a para a fama: é a Lagoa das Sete Cores. Lagoa que parece mar e “mar” que é muitas vezes comparado ao das Maldivas.

Longo, estreito e pouco profundo, este lago de água doce no estado de Quintana Roo é o segundo maior do país e fronteira que separa o México do Belize (a sul). A essa faixa natural que divide os dois países batizaram de Canal dos Piratas, por ser usada no século XVIII como refúgio de piratas e contrabandistas que navegavam pelo Caribe. Era então, como agora, o esconderijo perfeito, localização estratégica de águas transparentes, rota de escape, ponto de ataque e refúgio.

Refúgio. O vocábulo acertado para descrever esta manhã de chuva intensa a partir do quarto número 1 deste “lar”: Our Habitas Bacalar. Refúgio no livro que se abria com tempo para apreciar cada letra, no leve dormitar entre páginas. Deixámo-nos ficar na cama. Sem pressa de chegar a lado nenhum. Olhávamos a lagoa, os pássaros que iam e vinham, uns a voar baixo junto à janela, outros a planar ligeiros sobre aquelas águas doces, mornas e cristalinas.

Fazíamos pausas apenas para comer. Primeiro o pequeno-almoço normalmente servido (à carta) no terraço do bar da lagoa, e em dias de chuva, como o de hoje, sob o teto de madeira do restaurante Siete, encaixado nos troncos das árvores entre a densa vegetação da selva Maia.

Our Habitas Bacalar não é (mais) um hotel. É a casa que, em sonhos, poderíamos tentar sonhar, ancorada sobre a lagoa e encastrada na selva. Composta por 34 tendas desenvolvidas num sistema de construção modular de baixo impacto ambiental, estas cabanas em forma de “A” imiscuem-se na paisagem, visando fazer parte da preservação do ecossistema. No Our Habitas Bacalar “participamos ativamente dos esforços de conservação local”, sublinham-nos.

O cenário é tão poderoso quanto impassível. Vive de energias tão antagónicas que acabam por se completar: a exuberância da vegetação e a serenidade das águas paradas; os verdes intensos, as nuances de azul.

É um convite a parar. Todos os dias se oferecem “experiências imersivas e focadas na comunidade, celebrando a ecologia e cultura locais”, que incluem yoga ao amanhecer, workshops de arte, meditações guiadas ou curas com banhos de som. Mas aqui convida-se também a parar para pensar. A fechar os olhos e deixar a natureza entrar solta, mas também a cooperar, a proteger… O mundo, a natureza, nós, vós, eles.

“Cuida destas antigas formas de vida”, lê-se numa placa no início do pontão que liga o bar de Our Habitas à lagoa. Ali, naquelas águas transparentes, com fundos de areia branca, que mudam de tom consoante a posição do sol e das nuvens, está a mais antiga evidência de vida na Terra, com cerca de 3700 milhões de anos. São microbialitos fossilizados, formações rochosas conhecidas como estromatolitos, muito sensíveis e, por isso, avessos ao toque – e até às impurezas que se soltam das peles inundadas de protetor solar…

Bacalar é a palavra Maia para “cidade onde o céu nasceu” ou “lugar rodeado de juncos”, “onde o céu nasce entre os juncos”. Mesmo que não se seja místico, sente-se magia por aqui. A região é, desde 2006, um dos “Pueblos Mágicos” do México, “sítios com símbolos e lendas, povoamentos com história, em muitos casos cenários de feitos transcendentes, lugares que mostram a identidade nacional em cada um dos seus cantos, com uma magia que emana dos seus atrativos”, lê-se no site oficial.

Fundado no ano de 435, este é um dos povoados mais antigos de Quintana Roo. Diz quem sabe que a aldeia lembra Tulum há 20 anos. Com cerca de 40 mil habitantes, ainda se sente a alma genuinamente mexicana, numa mistura de caos e contentamento, com bancas de fruta e legumes a “decorar” a beira das estradas, tacos a serem servidos na rua independentemente se cai chuva torrencial ou se o calor faz estalar a pele.

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