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Há uma urbanidade em Berlim que nos desafia a ser melhores. Reunificada há 36 anos, é uma cidade plural e eclética, com notável densidade artística e cultural. Ficámos no Hotel Sana Berlin e não só nos rendemos a esta vibrante capital europeia, como descobrimos o que verdadeiramente significa hospitalidade.
A 15 minutos da movimentada Kurfürstendamm e da histórica Breitscheidplatz, está o Hotel Sana Berlin, um quatro estrelas que levou ao coração da capital alemã um gosto português. Sebastian Weidtkamp, o diretor do hotel, é o espelho da verdadeira hospitalidade — aliás, “hospitalidade” é uma questão cara à cultura deste grupo hoteleiro português criado em 1999, que conta atualmente com 17 hotéis. O Sana Berlim é um dos três com presença internacional (os outros são o Relais & Châteaux Auberge du Jeu de Paume, em Chantilly, próximo de Paris, e o Epic Sana Luanda, em Angola). Pedro Miguel Ramos é o diretor de comunicação do grupo, também ele incansável embaixador da hospitalidade e generosidade portuguesas.
O Sana Berlin tem uma localização central, com a estação de metro Augsburger Straße a poucos passos, havendo sempre a hipótese de nos aventurarmos pela cidade de bicicleta muito facilmente (Berlim é completamente plana, localizada na chamada grande planície europeia). O bairro é calmo, a fachada discreta, rigorosa e moderna. Um verdadeiro hotel de cidade com conforto e valências importantes para quem viaja em trabalho ou para umas férias com amigos, família ou na escolha de uns dias sozinho.
Depois de cerca de meia hora de táxi a partir do Aeroporto Internacional de Brandemburgo, estamos à entrada e, quando passamos a porta rotativa, não deixamos de reparar na assinatura “Excellence Concept Hotel” — frase a reter. Somos recebidos com o calor de um sorriso que sentimos como abraço, sentimento que não mais nos abandonou. As boas-vindas? Com um pastel de nata, um dos muitos detalhes de uma portugalidade enraizada nesta arte de bem-receber, nobremente cultivada por Sebastian. Já antes, à chegada, havíamos sido mimados… Quem se lembraria de nos esperar no aeroporto com uma bandeja sublimada por quentes e reconfortantes cafés expresso que nos encheram a alma? (Sebastian, claro!)
O interior do hotel é assumidamente urbano, seguindo a estética do exterior. Cores escuras marcam os espaços sociais numa óbvia rutura com os quartos onde impera o branco em painéis de vidro lacado, pavimento de madeira clara e decoração cuja leveza é enaltecida pela generosidade das áreas.
Respira-se neste quarto e é bom acordar nesta cama.
Ficámos numa Junior Suite, um dos 166 quartos e 42 apartamentos do Sana Berlin. As tipologias dividem-se em Deluxe e Premium Deluxe Double, Family Rooms, Junior Suite e uma Master Suite. Quanto aos apartamentos, que ficam numa ala exclusiva com entrada independente, mas igualmente integrados no hotel, podem ter um ou dois quartos, havendo ainda os chamados Studio Apartments, de maior área.
A imagem do lobby é uma clara assinatura do arquiteto Francesc Rifé (de Barcelona) responsável pelo projeto. As paredes são revestidas com placas metálicas onduladas e perfuradas, que criam um cenário cinematográfico. No piso térreo, estão também as três salas de conferência designadas Lisboa I, II e III, existindo mais duas no piso 7, Porto I e II. Estas, como estão no último piso do hotel, têm acesso a um terraço de vista fabulosa sobre a cidade.
É importante referir que o Sana Berlin tem também um Fitness & Wellness center, com piscina interior e sauna (ambos com vista), banho-turco e ginásio, este último aberto 24 horas.
Para as refeições, o hotel tem um restaurante com cozinha internacional a que junta inspiração portuguesa onde não pode faltar o azeite e o vinho Divai da Herdade dos Casarões, propriedade do grupo Sana em Estremoz, com enologia do reconhecido Luís Duarte. Também não falta Queijo da Serra e Pastéis de Nata, descritos na carta de sobremesas como “Portugiesische Spezialität”.
O restaurante tem dois ambientes distintos: um que segue a linha do lobby, com cores escuras e, porque não dizer, mais masculina; outro que se prolonga pelo wintergarten, com uma decoração mais casual e orgânica, muito luminoso e que desfruta também do terraço exterior (brevemente, novas propostas em termos de bar e restaurante irão surgir).
É no espaço do restaurante que é servido o pequeno-almoço para o qual, além da qualidade e diversidade, deve ser referido o (inesperado) horário. Todos os dias, das sete ao meio-dia.
A tão importante memória
Pode ser muito duro conviver com os testemunhos da história do século XX de Berlim. Feridas profundas e ainda muito vivas são sobressaltos na malha urbana e na vida quotidiana dos berlinenses.
Transformadas em memoriais ou mantidas numa ruína que simbolicamente nos lembra que todos os dias temos que conseguir ser melhores e não permitir que o absurdo aconteça. Mas que também nos recordam que o desejo de justiça e liberdade foi o motor que devolveu a dignidade a Berlim.
Junto à histórica estação de metro de Wittenbergplatz, por exemplo, onde milhares de pessoas passam todos os dias para subir a Kurfürstendamm (importante eixo comercial da cidade) ou entrar nos armazéns Kaufhaus des Westens (coloquialmente abreviados para KaDeWe), está uma inquietante lista.
São 12 campos de concentração nazi, uns na Alemanha, outros na Polónia. Era precisamente desta estação que partiam os comboios para todos esses lugares de horror. É imperativo que não os esqueçamos — e no olhar de Sebastian vimos uma sombra pesada quando nos fez parar junto à placa.
Subindo a Kurfürstendamm, chegamos à Breitscheidplatz que, como começámos por referir, está à distância de um curto passeio do hotel Sana (15, 20 minutos – não mais). Aí está o Jardim Zoológico e a famosa Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche, ou simplesmente Gedächtniskirche. A Igreja da Memória.
À semelhança do que aconteceu a toda a cidade, a igreja foi bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial e, do monumental conjunto, apenas resta uma parte de uma das cinco torres e uma pequena área interior de teto abobadado com revestimento original em mosaico.
Ponderou-se a demolição já que, em termos arquitetónicos, não seria particularmente interessante (pastiche medieval em estilo neo-romântico, construída na década de 1890 por Wilhelm II em homenagem ao seu avô, o Kaiser Wilhelm I), e também não terá sido um edifício de grande importância na cidade.
Mas julgou-se fundamental conservar a ruína como memória.
Foi então desenhada uma nova igreja pelo arquiteto Egon Eiermann, um dos nomes mais importantes na arquitetura da Alemanha do pós-guerra, inaugurada em 1961.
O modernismo e a herança da Bauhaus caracterizam a obra: linhas simples, funcionalidade, permeabilidade entre interior e exterior, leveza, produção em série dos elementos da construção.
Por exemplo, os incríveis painéis que formam as paredes exteriores, em betão, com vidros quadrados cuja cor azul filtra a luz do dia para o interior. O conjunto é formado pela igreja que tem uma forma octogonal, pela torre sineira de planta hexagonal, pela capela e pelo salão, ambos retangulares.
Entrar na igreja de Egon Eiermann é mergulhar numa espiritualidade azul que emociona mesmo os não crentes. A imagem de Cristo parece levitar sobre o altar, as paredes envolvem-nos numa espécie de proteção divina e percebemos o alcance da escolha da forma octogonal.
Sentamo-nos e não podemos deixar de reparar no desenho impecável das cadeiras. Eiermann foi também um importante designer de mobiliário e estas peças são intemporais.
Tivemos ainda a sorte de estar a acontecer um ensaio de órgão para o concerto dessa tarde (a igreja tem uma programação apetecível de música clássica) e, de repente, a música de Bach foi a confirmação da espiritualidade que se vive na Gedächtniskirche. A Igreja da Memória.
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