shape
Travel

Far West Tibetano

As origens do sagrado

A 1.400 quilómetros de Lhasa, o monte Kailash desenha um contorno sublime, com uma aura magnética. Percorremos a pé, no meio de uma procissão de peregrinos budistas, os 52 quilómetros que o circundam, antes de prosseguirmos para o mítico reino de Guge, agarrado a um labirinto de picos detríticos. Um sonho acordado num deserto de altitude.

  • Texto: Franck Charton
  • Fotografia: FRANCK CHARTON (FIGAROPHOTO / ATLANTICO PRESS)
24 de Outubro, 2025

Impossível esquecê-la após a sua contemplação: atraindo todos os olhares, a cúpula diáfana do Monte Kailash, ou Kang Rinpoche em tibetano (preciosa jóia das neves), irradia beleza e poder espiritual. Ela domina o horizonte árido das estepes de Ngari do alto dos seus 6.638 metros, como uma coroa de gelo no topo de um gigantesco escudo de arenito castanho. O seu cume nunca foi pisado, o que o torna num dos raros picos do mundo ainda intocados.

A montanha mais sagrada da Ásia, seria a encarnação do mitológico Monte Meru, simbolizando o eixo do mundo nas cosmogonias persa, budista, jainista, hindu e bön (religião naturalista, semelhante ao xamanismo, que prevalecia no Tibete antes da chegada do budismo no século VIII, ainda muito viva hoje em dia no oeste tibetano).

Os seus devotos caminham em ritmo ritualístico à volta da sua base para conquistar méritos, na esperança de uma melhor reencarnação: é a kora, ou circunvolução, cujos efeitos são redobrados durante as festas auspiciosas do calendário lunar, nomeadamente os solstícios e as luas cheias. Para os hindus, representa a morada de Shiva, para os budistas, a de Chenresig, o Buda da Compaixão, cuja encarnação é o Dalai Lama. Quanto ao fundador do jainismo, foi no seu topo que viu a luz. Finalmente, o antigo culto animista bön considera-a como o símbolo da alma.

Estamos bem no centro do mito. Prova disso é a enorme faixa que atravessa a sua parede sul, vestígio de um golpe de espada titânico durante o famoso duelo entre o poeta iogue Milarépa e o mestre mago Naro Bönchung; metáfora da luta entre a sabedoria budista e as superstições ocultas.

Viajamos durante três dias desde Lhasa até chegarmos a Darchen, uma cidade em expansão que se estende no sopé da montanha sagrada. No início dos anos 1990, era apenas uma aldeia poeirenta com um posto de controlo, algumas casas de chá, um punhado de quintas feitas de adobe e estábulos onde se podiam encontrar iaques para as caravanas de transporte.

Depois, transformou-se num centro de peregrinação (pousadas, lojas de souvenirs…) e, em seguida, numa vila que acompanhou o crescimento do turismo, à medida que o Kailash ganhava notoriedade na China e no exterior. Hoje é uma pequena cidade moderna e bem organizada em forma de tabuleiro de xadrez, mas puramente funcional, que prospera sob o impulso dos empreendedores do trekking e da fé.

Mesmo aqui, a 4.670 metros, a China conquistadora imprime o seu estilo utilitário a um ritmo frenético. Estamos no final de maio, que corresponde ao quarto mês do calendário tibetano, ou Saga Dawa (quarta lua). Este festival continua a ser provavelmente o mais importante do ano para os budistas que celebram o dia da lua cheia (Dawa Nyakhang), o aniversário do Buda histórico Shakyamuni, que se diz ter vivido entre os séculos VI e IV a.C.

Logo ao amanhecer, multidões de tibetanos deixam Darchen a pé, a cavalo, de trator ou de camião, para se dirigirem a Darboche, a 4 quilómetros de Darchen. O local do festival é uma estepe, como uma esplanada natural sob um planalto rochoso, onde tradicionalmente aconteciam os “funerais celestiais”, cerimónias fúnebres tibetanas agora proibidas por Pequim.

Visão Geral da Privacidade

Este site utiliza cookies para que lhe possamos proporcionar a melhor experiência de utilizador. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador, e desempenham funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site, e ajuda a nossa equipa a entender quais as secções do site que considera mais interessantes e úteis.