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Ouro Preto, a beleza que desafia a pressa

O som do sino vem como um sopro sobre a montanha. É um apelo, um lamento, um lembrete. Em Ouro Preto, o tempo não passou - ele permanece, como se todas as épocas convivessem simultaneamente. E paira, em movimentos lentos, pelas ladeiras, pelos lampiões, pelos entalhes das igrejas.

  • Texto: Alexandre Lalas
  • Fotografia: Ricardo Garrido e D.R.
25 de Julho, 2025

História

Ouro Preto nasceu Arraial do Padre Faria, em 1698. O nome dado na ocasião era uma homenagem ao Padre João de Faria Fialho, o primeiro capelão da Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos, jóia do barroco mineiro. Por sinal, Padre Faria é até hoje o nome de um antigo bairro em Ouro Preto. Com o início do século XVIII, a exploração do ouro na região ganhou tração. E com a riqueza, veio a guerra. Entre 1707 a 1709 ocorreu a Guerra dos Emboabas, conflito entre os bandeirantes paulistas contra portugueses e migrantes de outras regiões que disputavam o direito de exploração das jazidas de ouro descobertas no estado.

Finda a guerra, diversos vilarejos em redor do Arraial do Padre Faria uniram-se e formaram o que chamaram de Vila Rica de Albuquerque, em honra do então governador das capitanias de Minas Gerais e São Paulo, António de Albuquerque Coelho de Carvalho. No entanto, a homenagem durou pouco e um ano depois os portugueses passaram a chamar o lugar apenas de Vila Rica. As minas de ouro eram o grande chamariz. E tamanha riqueza contribuiu para que em 1720, Vila Rica fosse transformada na capital das Minas Gerais.

Foi um período, literalmente, de ouro.

 

Mas a vila, filha da ganância e da febre, cresceu sob o peso da riqueza e da ambição. A cada arroba de ouro, a quinta parte pertencia à Coroa Portuguesa.

Mesmo assim, o barroco floresceu. Igrejas erguiam-se com o dourado do ouro a brilhar nas talhas. Mas se um lado era de pura riqueza e beleza, havia outro que era marcado por sangue e morte, e cujo brilho era da dor. Milhares de africanos escravizados, vendidos e trazidos à força, cavavam, muitas vezes com mãos nuas, os fundos das minas. Vários morriam sufocados, soterrados, desnutridos, esquecidos. Trabalhavam até à morte: sem nome, nem descanso. Estima-se em cerca de 500 mil o número de escravos enviados para a região durante o ciclo do ouro. Nunca foi por eles que os sinos das ricas igrejas de Vila Rica dobravam.

Quando o ouro, outrora abundante, começou a rarear, a opressão aumentou.

Em 1789, a Coroa começou a cobrar de forma mais violenta e implacável os impostos atrasados. Cada ação provoca uma reação. E inspirados pelas ideias iluministas e com a independência dos Estados Unidos a ressonar mundo afora, um grupo formado por intelectuais, militares e até empresários passou a conspirar.

Em reuniões regadas de cachaça, ideias e ideais, sonhava-se um Brasil livre, independente, mais justo. No entanto, “todo jesus tem seu judas”. E a Inconfidência Mineira teve o seu fim na delação de Joaquim Silvério dos Reis, então coronel-comandante do Regimento de Cavalaria Auxiliar de Borda do Campo.

Pressionado por dívidas impagáveis, o Judas das Minas Gerais entregou conspiração e conspiradores à polícia da Coroa. Os envolvidos foram presos, julgados, condenados ao degredo e exilados em colónias portuguesas em África. No entanto, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes e um dos principais líderes do movimento, foi condenado à morte. O mártir foi enforcado no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1792. O corpo do herói da Inconfidência foi esquartejado e pedaços foram espalhados pela estrada que ligava a então capital brasileira à cidade de Vila Rica. Já a cabeça do alferes ficou exposta num poste na capital mineira, afim de desencorajar novos movimentos independentes.

Os inconfidentes foram destroçados. Mas o sonho que os unia permaneceu vivo. E 30 anos após a execução de Tiradentes, o Brasil finalmente encontrava a sua independência, no dia 7 de setembro de 1822.

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