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No seu premiado restaurante, a chef Débora Fadul usa os ingredientes, os agricultores e as tradições de seu país natal para reescrever a narrativa de uma das cozinhas mais ricas — e menos conhecidas — da América Latina.
Numa versão coloquial, diacá é o oposto de de allá — “de lá”, aquilo que vem de fora. Quando decidiu abrir o seu restaurante, a chef Débora Fadul escolheu precisamente esse nome para deixar clara a intenção de olhar para os produtos, os agricultores e as tradições “de cá”. De cá, no caso dela, é a Guatemala — um país espremido entre o México, Belize, as Honduras e El Salvador que, apesar de possuir uma das culturas culinárias mais antigas do continente americano, continua a receber muito pouco destaque quando se fala de gastronomia.
É precisamente essa narrativa que Fadul tenta mudar. O seu trabalho passa por tornar a cozinha guatemalteca mais conhecida no mundo, mas sobretudo por devolver aos próprios guatemaltecos o orgulho naquilo que sempre tiveram. “A Guatemala sempre teve uma identidade gastronómica. O problema é que nem sempre fomos nós próprios a valorizá-la. O que temos feito é respeitá-la e conhecê-la em profundidade”, defende. O que mais a entusiasma, entretanto, é ver nascer no país uma verdadeira vontade de construir comunidade e fortalecer uma identidade comum. “Vejo cada vez mais cozinheiros a trabalhar com produtos guatemaltecos e a desenvolver cozinhas ligadas aos seus próprios territórios. A cozinha de autor já não está concentrada apenas na capital: de Xela a Petén, de Antigua a Cobán, surgem projetos que dão voz às cozinhas regionais.”
A chef foi uma das pioneiras desta nova geração ao recuperar receitas e tradições que nasceram do encontro entre a cozinha maia — ainda hoje muito presente nas casas, sobretudo nas comunidades do interior, onde muitas famílias mantêm antigos rituais culinários — e a influência espanhola após a conquista. “Mais tarde chegaram também especiarias árabes e sabores africanos através das Caraíbas, criando uma cozinha profundamente mestiça”, explica Fadul. Uma história que, de diferentes formas, se repetiu por todo o continente americano. “Muitos dos nossos recados [molhos ou caldos espessos e aromáticos que servem de base para vários pratos tradicionais] refletem esse encontro de culturas. Num dos mais comuns utilizamos sésamo, que não é originário da América, mas cuja qualidade na Guatemala está entre as melhores do mundo, ao lado da pepitória, uma semente mesoamericana. A nossa cozinha sempre soube integrar influências sem perder a sua identidade.”
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