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Craft

I want my bamboo bicycle

Pedalamos ao ritmo de uma brisa cálida, sob o aroma das tílias que abraçam o céu da Curia, numa bicicleta de bambu. É tão leve que a sensação é a de que planamos numa espécie de tapete voador. Voamos para longe, muito longe, com aquele empurrão único da liberdade que não nos deixa parar. Podia ser em Pequim, mas é mesmo numa aldeia da Anadia onde o tempo parou, mas não para a “bam.bu bicycles”, uma marca muito à frente.

  • Texto: Fátima Iken
  • Fotografia: Maria João Gala
22 de Outubro, 2025

Posso dizer-vos que andar numa bicicleta de bambu não é a mesma coisa. Sobretudo quando têm nomes de castas de vinho e nos fazem deslizar como quem bebe um copo de Bical ou de Baga. Foi assim mesmo que foram batizadas, consoante se destinem ao sexo feminino ou masculino.

Neste projeto artesanal inspirador, o bambu surge com a flexibilidade necessária, mas com uma simultânea resiliência e estabilidade, corporizando o sagaz ditado japonês “bamboo that bends is stronger than the oak that resists” [o bambu que se curva é mais forte que o carvalho que resiste].

A leveza dos materiais, nestas coisas de “cycling”, tem muito que se lhe diga. Tudo ganha em valor acrescentado quando estas bicicletas são feitas à mão apenas por uma pessoa que, depois de muitas experiências e tentativas, descobriu o modelo ergonómico ideal a partir de fibras naturais.

Criada por dois irmãos com energia contagiante – Joana e Tiago Saavedra – a “bambu.bicycles” promete “bicicletas de sonho, para viagens épicas e experiências memoráveis”.

Tiago tem 34 anos, é designer industrial e, num anexo do jardim da casa de família, na Curia, Anadia, uma espécie de garagem onde se guardava o vinho, inspira-se entre ferramentas, resinas, vários tipo de bambu e imaginação num work in progress. “Apesar dos avanços, está-se sempre a aprender.” Tudo exige trabalho de carpintaria e depois resina, fibra de cânhamo e envernização.

Há serras, limas, lixas e muito suor nesta “oficina caseira”, porque foi uma inicial dor de cabeça criar o primeiro protótipo, mas depois tudo rolou sobre duas rodas. “O bambu absorve o impacto e vibrações na estrada, criando uma ponte entre natureza e tecnologia.

” É verdade, nós conferimos. Talvez daí a diferença na condução desta “retro do futuro” que nos leva numa viciante viagem, sem apetecer parar. Tivemos de voltar para trás, mas, por nós, íamos até à China.

A ideia deste projeto foi da irmã, Joana Saavedra, de 27 anos, e nasceu em Pequim, quando trabalhava numa empresa francesa na área de desenvolvimento de negócio.

Tudo surgiu de forma orgânica, tal como os próprios modelos. “Fiz muita pesquisa durante as férias pelas Filipinas e Tailândia e o meu irmão tinha acabado Design Industrial, estagiou na Órbita, e quando acabou propus-lhe ir à China ver como se trabalhava o bambu, mas ainda não tínhamos nenhum plano específico” – confessa Joana, formada em Economia.

Depois, surgiu o Covid e Tiago foi construindo e testando modelos, até que começaram a reparar que surtiam muita curiosidade, nomeadamente em ciclistas. “Em 2021 despedi-me e aí começámos a sério. Já tínhamos um protótipo e foi tudo avançando” – enfatiza.

Para Tiago, foi um processo de experimentação, de escolha da variedade ideal de bambu (há mais de 1600) e dos vários géneros de resinas, do formato mais ergonómico de quadro até chegar ao protótipo ideal que foi testado numa viagem da equipa até Santiago de Compostela “que correu lindamente”.

Os modelos são essencialmente urbanos ou focados em cicloturismo, ou seja, para quem quer usar ‘a bambu’ no percurso casa-trabalho e nas férias, o que as torna muito compatíveis. “Mais que uma bicicleta é um estilo de vida, de mobilidade sustentável que defendemos.”

“O quadro baixo é para as mulheres e chama-se Bical. O alto é para os homens e chama-se Baga” – diz Joana. Duas castas emblemáticas da Bairrada que sublinham a identidade local.

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