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Restaurantes e Bares

Pelas mesas clássicas de Portugal

Encanada

Entrar num restaurante com 86 anos é sempre uma festa. É quase como entrar num museu onde a arqueologia alimentar se impõe de forma respeitável. Então se o restaurante em causa conservar a alma e receituário da casa é mais um motivo de regozijo.

  • Texto: Fátima Iken
  • Fotografia: Daniel Luciano
26 de Setembro, 2025

Sim, porque isto de mesas clássicas tem muito a ver com a arte. Pousamos os olhos nas velhas fotografias e documentos, sobrevoamos sobre os contadores pormenores do passado, perscrutamos se alma do passado ainda paira por ali ou se esvaiu. E tudo começa no nariz. Se os aromas convocarem a ficar, há que esperar e tirar a prova dos nove.

É o caso do Encanada, na histórica (e encantadora) vila de Ponte de Lima, que apesar da idade e de novas gerações à sua frente, soube manter um receituário impoluto e a maneira de fazer de outros tempos. Isso se deve, em grande medida, às grandes cozinheiras minhotas e seu saber.

“Queremos continuar a tradição e o modo de fazer, exatamente como era. Trata-se de uma casa que nasceu em 1929 e por aqui já passaram grandes cozinheiras, sendo o símbolo sempre o arroz de sarrabulho, que queremos continuar a preservar do mesmo modo. O arroz de sarrabulho é um prato que leva horas a confecionar.”

O lugar é, para além do mais, edénico, debruando o rio Lima, tendo sido outrora uma famosa pensão.

Isabel Dias e sua família, hoje à frente do restaurante, cumpre um património de que se orgulha, já que este foi o reduto de emblemas da culinária minhota, cozinheiras de mão cheia que se notabilizaram pela execução do prato. Garantir a continuidade deste legado é um dos seus objetivos.

Ela mesma cresceu a ver fazer arroz de sarrabulho e enchidos na casa de família na altura da matança do porco.

Já no século XIX, Clara Penha era a referência da gastronomia local. A sua sobrinha acompanhou o modus faciendi no restaurante de Clara durante 60 anos. Belozinda Vieira Penha Varela (1908-2002) foi uma dessas cozinheiras que confecionou, promoveu e divulgou de forma exímia o arroz de sarrabulho à moda de Ponte de Lima. Por isso mesmo chegou a ser distinguida com a Medalha de Bronze atribuída pela Câmara Municipal de Ponte de Lima.

Outrora local do restaurante Clara Penha, hoje é um espaço que valoriza e evoca o património alimentar da cozinha do Alto Minho, nomeadamente na defesa da gastronomia tradicional limiana e como formação na área gastronómica.

No início o espaço não passava de uma venda de vinhos e petiscos, bem como de algumas refeições simples e carne de porco salgada. Era a casa Encanada, uma casa de pasto de portas de batente (saudades dessas portas) que fazia as delícias de quem ali passava.

O salto qualitativo para a passagem a restaurante dá-se em 1929 e, já então, se confecionava o saboroso sarrabulho, tanto em papas como em arroz. O espaço cresce em afluência e amplia-se, tendo chegado também a ser pensão. Vinha gente de todo o país provar o famoso arroz de D. Adelina que se tornaria a escola de várias cozinheiras que, deste modo, também aprenderam a confeção, partindo muitas delas para outros restaurantes e continuando a tradição.

Em 1973, decidiram passar o testemunho para novos proprietários que continuaram o seu legado, da mesma forma que há cinco anos a nova família o perpetua. A isto chama-se a atualização de “tradere” (“receber” no étimo latino).

Hoje, para além das papas de Sarrabulho, arroz de sarrabulho e rojões, são referências a lampreia (sazonal, entre fevereiro e maio) e o bacalhau, o sável, bolinhos de bacalhau, o cabrito assado no forno, carnes grelhadas nacionais e outros pratos da cozinha tradicional.

<p>A tábua de entradas é substancial: presunto pata negra, sapateira recheada, salgadinhos, mexilhão com molho verde, chouriço caseiro de carne e de cebola, feitos no restaurante, sempre acompanhados de vermute feito à base de vinho do Porto.</p>

A tábua de entradas é substancial: presunto pata negra, sapateira recheada, salgadinhos, mexilhão com molho verde, chouriço caseiro de carne e de cebola, feitos no restaurante, sempre acompanhados de vermute feito à base de vinho do Porto.

Encanada

Encanada

Rua Doutor António Magalhães, Mercado Municipal, Loja 8, 4990-110 Ponte de Lima

T.258 941 189

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